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terça-feira, 30 de junho de 2009

Opinião de quem entende do assunto.


Quem acompanha aqui minha ainda-em-construção resenha do Crepúsculo, o mais recente entorpecente da adolescência globalizada, já deve ter notado que minhas principais referências críticas são Drácula e Entrevista com o Vampiro. O problema é que eu ainda gozo de uma involuntária falta de prestígio, o que torna minha opinião irreverentemente irrelevante. Mas me alenta saber que Anne Rice, mesmo comedida, sustenta minha opinião, como podemos ver na reportagem publicada no Ambrosia.

Leiam em voz alta: "Ele [Crepúsculo] apresenta de forma muito presa a figura do vampiro de maneira que não parece fazer muito sentido. Nós temos que acreditar que um grupo de imortais escolheu uma pequena cidade no lugar de uma metrópole, e que eles tem que repetir o ensino médio (High School) para todo sempre, o que certamente soa horrível." Quem ai fala a língua da Susan Boyle pode conferir aqui a matéria no original, na integra.

Tudo cairá em desgraçada quando perguntarmos ao leitor médio de Crepúsculo: "Você conhece Anne Rice?" Não, só Stephanie Meyer prevalece. Isso tira o prestígio da opinião de Rice? Nem um pouco. Só 90% dos leitores de Crepúsculo darão de ombros a opinião de quem realmente entende do assunto.

Trágico? Nem um pouco.

Exeunt

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Sobre virgens e pseudo-vampiros: Parte II


No texto passado fiz uma breve exposição das duas principais obras literárias que fundamentam a estética vampiresca contemporânea, e terminei o texto afirmando que Crepúsculo não guarda nenhum dos elementos das histórias de vampiros, consagrados por Drácula e Entrevista com o Vampiro. Bom, o suspense acabou; vamos ao resto da depreciação, digo, da crítica.

Uma coisa óbvia aos amantes de histórias de vampiros ocorre a primeira vista da estória: não há horror, ou sangue sendo derramado, ou humanos sendo violados por presas sedentas. Muito menos o clima gótico, pesado, sombrio, típicos das narrativas dos sangue-sugas. Por Akasha, Nosferatu, de 1922, mudo e monocromático, é mais gótico que isso! Aquela sensação no estômago do fã só piora quando somos apresentados a Família Cullen (antes gostaria de pedir sinceras desculpas, pois este crítico simplesmente suprimiu as características de cada membro da pretensa família demoníaca de Stephanie Meyer, pois isso implicaria em uma melhor comparação de cada um dos personagens à outra famosa família que eu mencionarei a frente). É algo tão risível, tão cheio de clichês associados a burguesia norte-americana média, que a única comparação possível seria a família Adams. Nem isso é possível, uma vez que os Adams são carismáticos, divertidos, justamente por serem uma engraçadíssima paródia estereotipada dos filmes de monstros, vampiros e outros bichos das trevas. Diferente da família Adams, cuja a intenção é parodiar, a família Cullen é um reflexo distorcido, uma imitação tosca, sem graça e vergonhosa das outras tradicionais famílias vampirescas do Cramunhão (vide Noivas do Drácula, e a "família" de Louis). Em suma, nada é preservado: nem o clima gótico, nem o drama pessoal da existência vampiresca, nem o o erotismo e muito menos a violência e o sangue. Como demônios sugadores de sangue, os Cullen são ótimos cristãos, o que é ridículo.

O fã ali bem pode argumentar que esse tipo de coisa não poderia ser feita, em vista do público-alvo. Raios, então não chame de estória de vampiros! Chame de Power Rangers, Cinderela, ou alguma coisa da Disney! Por Satã, Edward tem um pele de purpurina! "Ah mas ele é forte e bebe sangue como vampiros". Ha! Só faltava mesmo ele ter uma espada verde e sair voando no meio dos bambus, igualzinho ao O Tigre e o Dragão. Vampiros que não morrem ao sol, que são bonzinhos e não bebem sangue humano, que são belos como estátuas de mármore do Michelângelo (mas nenhum nu), que voam e correm como o Superman, vejam como tudo isso parece muito estrategicamente descrito como... um filme de Hollywood! Sim, é nesse sentido que eu argumento que Crepúsculo não se trata de uma atualização do mito do vampiro, como foi dito no Ambrosia, mas sim uma deturpação do mito moderno do vampiro por uma imaginação tipicamente norte-americana, moldada pela influência de Hollywood. E não deu outra: carreguem isso pro cinema, disse o executivo da indústria do cinema, pois ganharemos milhões com os suspiros virginais. E é justamente sobre estes que tratarei na última parte desta surra de chibata, digo, desta crítica.

Exeunt.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sobre virgens e pseudo-vampiros: Parte I


Começarei essa resenha in media res: Crepúsculo é um farsa. Uma distorção bizarra da tradição das histórias de vampiros, iniciada com Drácula de Bram Stoker e expandida de forma primorosa pelas Vampire Chronicles da, hoje cristã, Anne Rice. Talvez até por todo frisson gerado pelo filme, toda a mídia de massa sedenta por doláres tenha enfatizado tanto o rosto dos atores e os suspiros virginais das adolescente, que alguém são ou mesmo corajoso tenha esquecido de fazer um crítica séria. Ou pelo menos chamar a atenção para a qualidade duvidosa da estória. Resumindo, alguém em modo berserk esqueceu de dar suas impressões sobre o filme. Pois eu sou aquele berserk com um teclado, impressões, e muita fúria lexical.

No entanto, como diria meu gentil amigo Jack Estripador, vamos por partes, tudo em prol do bem escrever. Dividirei esta minha humilde resenha em duas partes: na primeira parte, a mais literária, tentarei mostrar por que Crepúsculo não é uma história de vampiros, muito menos uma atualização do mito do bloodsuckers, pois somente os elementos mais hollywoodianos dos vampiros foram preservados, e os outros elementos da estética morta-viva simplesmente descartados. E por que só os elementos hollywoodianos foram preservados? Isto nos leva a segunda parte, onde meu bárbaro antropófago interior possui meus dedos, e argumenta que, afinal, Crepúsculo é uma estória para meninas virgens pré-adolescentes, cujo elemento fantástico na estória não tem outro fim senão alimentar fantasias pré-adolescentes de homens perfeitos.

Vamos aos fatos.

1 - Quero DNA! diz o Conde Vlad Tepes a Stephanie Meyer.

O incúbo, versão masculina da súcubo (Castlevania? Alguém?), é, como sua contraparte feminina, um demônio mitológico que suga as energias sexuais de suas vítimas. Uma vigorosa masturbação mágica, por assim dizer. O mito dos vampiros (que antes, no mundo medieval, eram só mortos que saiam de suas tumbas por não terem recebido os ritos fúnebres apropriados) é reescrito e modernizado por Bram Stoker em seu Drácula justamente nesses termos. A questão é que Drácula não é somente um demônio sangue-suga adepto de uma suruba: Drácula também traz um forte comentário social sobre a promiscuidade e a hipocrisia da sexualidade inglesa do século XIX. E é aqui em que todos os elementos do mito, hoje clássico, são fundamentados: estacas, fogo, luz solar, dormir em caixas de areia de sua terra, sangue jorrando aos litros, está tudo aqui.

Mas Anne Rice, com seu Entrevista com o Vampiro, dá uma passo adiante, como todo grande escritor. Preserva os elementos essenciais do mito (a promiscuidade, a luz solar, as estacas, a mórbida alvura) e adiciona um elemento dramático e humano, imortalizado no conflito de Louis e no cinismo de Lestat. Os vampiros não são mais só demônios sexuais, mas amaldiçoados a uma existência horrenda, presos a um anacronismo eterno e sobretudo, condenados a danação sem fim de se alimentarem e invejarem a vida daqueles que um dia amaram. Louis e Lestat, portanto, tornam-se a metáfora dos conflitos internos da alma do homem ocidental, amaldiçoado como eterno pecador por um lado, e por outro se entregando a promiscuidade destrutiva, amoral, sem qualquer empatia ou remorso pelo outro.

E qual desses elementos nosso Edward, vampiro de Sapucaí, preserva? Com toda certeza, nenhum, caros leitores...

(continua...)

Exeunt


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